Garimpar uma poltrona dos anos 60 e colocá-la ao lado de um sofá contemporâneo em caramelo não é nostalgia. É edição. E é exatamente essa capacidade de curadoria, entre o que já existia e o que foi criado especificamente para o espaço, que define a Casa Origens, o ambiente assinado pelo Studio Costa + Azevedo na 39ª edição da CASACOR São Paulo.
O projeto ocupa um estúdio de 53 metros quadrados no Parque da Água Branca, onde a mostra acontece de 2 de junho a 9 de agosto de 2026, e foi desenvolvido em parceria com a Criare. Mas o que poderia ser apenas mais um ambiente de mostra se transforma, aqui, em uma declaração de intenção sobre o que significa morar com identidade.
O hall que já é o projeto
A maioria dos projetos de mostra começa na sala. A Casa Origens começa antes disso. O hall de entrada foi concebido como uma grande caixa cenográfica, uma transição deliberada entre o barulho da mostra e o universo íntimo do estúdio. Nesse espaço, um cobogó desenhado pelo próprio escritório, executado em MDF Hibisco da Duratex no tom marsala, estabelece o tom do que vem a seguir: autoral, preciso, com referência cultural clara.

Ao lado, um gaveteiro em imbuia assinado pelo designer Felipe de Lucca reforça a lógica que percorre todo o projeto: o design brasileiro tem lugar garantido nesse repertório, não como concessão temática, mas como escolha estética real.
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Marcenaria como espinha dorsal
Em um estúdio com poucas divisões, a marcenaria planejada precisa fazer mais do que organizar. Ela precisa conduzir o olhar, criar unidade e, ao mesmo tempo, deixar espaço para que as peças garimpadas respirem. A Criare resolveu essa equação com o padrão Harmony, que percorre todo o ambiente com consistência visual sem engessar a composição.
O grande erro em projetos de mobiliário planejado é tornar a marcenaria protagonista absoluta, a ponto de sufocar tudo o mais. Aqui, a escolha foi outra. Na área social, quem assume o papel de destaque é a estante autoral desenhada pelos arquitetos Josemar Costa Júnior e André Azevedo, uma peça com cruzetas em aço inox incrustadas na madeira, que une precisão técnica e personalidade visual sem precisar gritar.
Na cozinha, portas e gavetas com fecho toque garantem a leitura limpa que esse tipo de integração exige. Já no dormitório, os armários mantêm o padrão externo da marcenaria em Harmony, enquanto o interior recebe o padrão Finesse — de linguagem geométrica, clara e contemporânea, uma camada de cuidado que só aparece para quem abre as portas.
O repertório que transforma um estúdio em história
A área social é onde a narrativa da Casa Origens se revela com mais força. A poltrona Alpha, de Maurice Burke para a Arkana, dos anos 60, e a poltrona LC1, desenhada por Le Corbusier em 1928, não estão ali como peças de museu. Elas dialogam ativamente com o sofá Alf da Casa Ática em tom caramelo e com a poltrona construtivista do designer Rodrigo Almeida, da BS Galeria, um gesto que conecta o modernismo internacional ao design autoral brasileiro contemporâneo.

A mesa de xadrez da Moooi introduz leveza e jogo na composição, enquanto o tapete Hemp TC Natural da by Kamy ancora o conjunto com textura e aconchego. O que se percebe nessa edição de peças é que o garimpo afetivo, quando orientado por um repertório apurado, não cria conflito visual, ele cria camadas.
A área de jantar como manifesto do morar prático
Integrada à cozinha, a área de jantar condensa outro argumento do projeto: sofisticação e praticidade não são opostos. A mesa de Ernesto Hauner, de 1931, reúne cadeiras de Martin Eisler, dos anos 1950, e a cadeira Him, de Fabio Novembre — três tempos distintos do design em torno de uma mesma superfície. A iluminação vem do pendente Bubble, de George Nelson, que confere escala e calor ao conjunto.
A geladeira embutida da Brastemp completa a marcenaria planejada pela Criare, reforçando que funcionalidade e identidade estética não precisam ser negociadas separadamente.
O dormitório que se dissolve na parede
Na área íntima, o armário some. Não literalmente, mas quase: ele se confunde com a parede em uma composição onde a cama se integra aos armários e ao painel de cabeceira revestido em tecido — um elemento que adiciona acolhimento sem criar peso visual.
A escrivaninha é acompanhada pela cadeira Platner, do designer americano Warren Platner, mais um aceno ao repertório modernista que atravessa o projeto com coerência. O banheiro, por sua vez, adota uma estratégia oposta à contenção do dormitório: uma escotilha em vidro canelado posicionada para ser vista a partir da sala provoca o olhar sem revelar nada — uma fronteira entre o íntimo e o social que funciona mais como insinuação do que como exposição.
CASACOR São Paulo 2026
A 39ª edição da CASACOR São Paulo acontece de 2 de junho a 9 de agosto de 2026, no Parque da Água Branca, com mais de 65 ambientes entre projetos arquitetônicos, instalações artísticas, lojas e restaurantes. O tema desta edição, “Mente e Coração”, propõe o lar como espaço de reconexão interior, uma leitura que a Casa Origens traduz com precisão: um ambiente que só faz sentido quando entendido como extensão de quem o habita.
Data: 2 de junho a 9 de agosto de 2026
Local: Parque da Água Branca – R. Dona Ana Pimentel – São Paulo – SP
Mais Informações: www.casacor.abril.com.br
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