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Arquitetura de turfa: como a Islândia construiu, por séculos, casas que parecem nascer da paisagem

Estruturadas com materiais retirados diretamente do território, as construções de turfa islandesas são um dos exemplos mais completos de como clima, cultura e técnica se fundem em uma única forma de morar

Escrito por: Cláudio Filla
8 de abril de 2026
em Arquitetura e Projetos
Foto: National Museum of Iceland/Ívar Brynjólfsson/Divulgação

Foto: National Museum of Iceland/Ívar Brynjólfsson/Divulgação

Há construções que não precisam de assinatura para comunicar identidade. As casas de turfa da Islândia são assim: erguidas com o próprio solo, parecem germinar da paisagem, não se impor a ela. O resultado é uma arquitetura vernacular que funcionou por séculos como resposta direta ao território e que hoje é reconhecida como um dos exemplos mais coerentes de construção orgânica do mundo.

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A turfa é um material formado pela decomposição lenta de matéria vegetal ao longo de milênios. Compacta, com alta densidade de fibras vegetais e baixa condutividade térmica, ela foi o recurso mais acessível na Islândia durante os séculos de assentamento. Mas essa escolha não foi meramente estética, afinal, era a única lógica possível dentro daquele território.

O que define a arquitetura vernacular e por que ela importa

Antes de entender as casas islandesas, é necessário compreender o conceito que as sustenta. A arquitetura vernacular não é um estilo catalogado em livros de história da arte. É um modo de construir espontâneo, orgânico, que pertence a uma cultura e reflete diretamente a relação entre comunidade, materiais disponíveis e espaço geográfico.

“É o território impondo suas idiossincrasias, mas ao mesmo tempo fornecendo os materiais”, define o arquiteto Fernando César Negrini, que analisa esse campo como uma tríade formada por lugar, matéria e trabalho. Juntos, esses três elementos constroem uma identidade arquitetônica própria — impossível de ser replicada fora de seu contexto original sem que algo essencial se perca.

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Arquitetura de turfa: como a Islândia construiu, por séculos, casas que parecem nascer da paisagem
Foto: Pexels/Kristen Nagy/Creative Commons

Esse raciocínio explica por que as turf houses não poderiam ter surgido em outro lugar. Elas são, em sua essência, uma resposta islandesa a um problema islandês.

A história das casas de turfa: dos assentamentos às fazendas tradicionais

As primeiras construções domésticas na Islândia foram as longhouses, ou casas longas, estruturas alongadas que reuniam pessoas e, em alguns casos, animais sob o mesmo teto. Com o tempo, esse modelo foi evoluindo, assim o layout, o uso dos cômodos e a relação entre os espaços mudaram conforme as demandas da vida cotidiana foram se transformando.

Ágústa Kristófersdóttir, chefe da coleção de artefatos do Museu Nacional da Islândia, contextualiza esse processo histórico: “As primeiras construções domésticas eram as casas longas, mas o formato das casas mudou gradualmente ao longo de muitos séculos, conforme o uso, o layout, o clima e as necessidades sociais evoluíram. Essas mudanças foram moldadas pelos materiais disponíveis, especialmente a madeira limitada, pelo clima da Islândia e pelas demandas práticas da vida cotidiana.”

O modelo consolidado ao longo dos séculos 19 e 20 era construído com paredes de turfa, reforçadas por fundações de pedra na base e com estrutura interna de madeira — material escasso na ilha, portanto usado com precisão. A turfa era cortada em blocos e disposta em camadas sistemáticas, com terra compactada entre elas, criando vedação e isolamento ao mesmo tempo. O telhado também recebia cobertura de turfa, o que completava o envelope térmico da construção.

Por que as casas de turfa funcionavam tão bem no frio islandês

O grande erro ao observar essas construções é tratá-las como primitivas. A eficiência térmica das turf houses é um resultado direto de séculos de adaptação ambiental, não de acidente. As paredes e coberturas de material orgânico criavam isolamento natural contra o frio intenso e os ventos que caracterizam o clima da Islândia. Mas o raciocínio construtivo ia além da escolha do material. A disposição dos cômodos, o layout compacto e a conexão entre os espaços internos eram decisões projetuais que reduziam a exposição ao vento e aproveitavam o calor gerado pelas próprias pessoas.

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Arquitetura de turfa: como a Islândia construiu, por séculos, casas que parecem nascer da paisagem

“A turfa ajudava a estabilizar a temperatura interna e reduzia as correntes de ar. Nas primeiras casas longas, uma fogueira central fornecia calor; mais tarde, porém, as áreas de convivência, com exceção da cozinha, não eram aquecidas de forma direta. Em vez disso, o calor em espaços como a baðstofa — a área de estar e os quartos — dependia das qualidades isolantes da estrutura de turfa e do calor corporal das pessoas e, em alguns casos, dos animais em partes adjacentes da fazenda”, explica Ágústa.

Esse tipo de solução, que hoje chamamos de conforto ambiental passivo, estava presente nessas construções muito antes de qualquer teoria de eficiência energética. O design islandês de turfa já aplicava, na prática, o princípio de aproveitar o calor interno sem depender de fontes externas de energia.

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Arquitetura vernacular e o risco do apagamento cultural

O que torna as casas de turfa islandesas mais do que um objeto de museu é justamente o que está em jogo quando esse tipo de conhecimento desaparece. A arquitetura vernacular carrega em si uma construção cultural coletiva, um saber acumulado por gerações que não está registrado em manuais técnicos, mas na própria forma como as paredes foram erguidas.

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Fernando César Negrini aponta esse risco com precisão: “Você viaja para várias cidades do mundo e entra no mercado e parece que está no mercadinho de São Paulo, porque as coisas estão todas pasteurizadas. O que existe é um apagamento.” A globalização da construção civil e a padronização dos materiais e sistemas construtivos têm reduzido a diversidade arquitetônica de maneira silenciosa e acelerada.

Preservar as técnicas construtivas tradicionais, nesse contexto, vai além da conservação histórica. É manter viva a relação entre território, cultura e construção, uma relação que, uma vez rompida, dificilmente se reconstrói.

As turf houses islandesas que resistiram ao tempo estão hoje protegidas como patrimônio arquitetônico e integram o roteiro cultural da ilha. Algumas, como as fazendas de Glaumbaer e Árbær, funcionam como museus abertos onde é possível entrar nos cômodos e perceber, na prática, como o isolamento da turfa altera a percepção de temperatura e som dentro dos espaços.

  • Arquitetura de turfa: como a Islândia construiu, por séculos, casas que parecem nascer da paisagem

    Cláudio P. Filla

    Fundador e Editor/Redator do Enfeite Decora
    Publicitário, gestor de mídias sociais e especialista em conteúdo digital sobre decoração, arquitetura, paisagismo, jardinagem e tendências para o lar.
    👉 Biografia completa do autor.

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Via: Revista Casa e Jardim
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